segunda-feira, 7 de março de 2016

SOBRE O HABITAR-SE

Na noite do domingo  próximo passado, assisti pela segunda vez ao filme de Almodovar  “A pele em que habito”, como uma espécie de breve sinopse é importante saber que é uma ótima tentativa de representação de relações de tensão entre essência, ser, habitar, gênero e ainda de identidade, explico, compõem o núcleo da trama: um cirurgião plástico, que tendo perdido a esposa, vitima de um incêndio, num trágico suicídio, esta em busca da criação de uma espécie nova de tecido que possa ser resistente a queimaduras, picadas de mosquitos infecções entre outras coisas. A filha deste medico que traumatizada pelos incidentes com a mãe sofre de agorafobia e não consegue se relacionar bem com as pessoas, a exemplo disso o relacionamento com seu pai. Um jovem que  é sujeitado a uma transformação profunda de si em vários níveis.

 

Refletindo sobre as impressões que esta linguagem me causou, pude perceber que se trata, em meu ver, de uma possível reflexão sobre o habitar-se, o que seja, o habitus de ser a si mesmo, o que poderíamos chamar de uma estagio entre o em-si e o para-si, não como algum tipo de essência, mas num sentido dialógico, possível apenas por meio da diferenciação entre o que o benjamim chamou de corpo vivo e o corpo cadáver . Esta diferença já suscita uma compreensão ou ainda uma percepção de que há uma cisão básica, e característica da condição humana, instaurada entre o eu do sujeito e a sua materialização consciente, que para Agambem se dará por meio do enunciado do Eu, seja por meio da escrita ou da fala. Em havendo esta divisão posta ai sob o olhar de uma ontologia materialista do trabalho, diga-se aquilo que eu faço é propriamente o que eu sou  e constantemente me torno.

 

Disso é patente que o personagem posto numa espécie de hiato de si mesmo em relação aos aspectos relativos ao corpo que foi transmudado de masculino em feminino construiu para si por meio das estruturas da foraclusão uma negação de si mesmo que se contradiz mas não se contraria, de forma que pode transitar pelo habito, nesse caso um processo contate de escolha, sendo sempre consciente parcialmente de que continua sendo quem é por meio daquilo que nega ser pela simples observação de novas praticas de ser a si mesmo, aqueles hábitos que também são como em Lacan a negatividade mantida constantemente para  a realização do real.



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