segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O Chaveiro

Tudo isso vinha escrito em poucas palavras acompanhadas de saudações e votos de felicidade. Todas as arestas permaneciam lá, indissolúveis na nodoa que manchava a mais polida educação com uma substancia desconhecida as pessoas simples, algo do que aqueles um dia conhecedores de tal eivada humanidade irascível não podem desejar outra coisa que não o expurgo e a completa ignorância como saída de sua cela invisível. Ali para aquele que pudesse ver, perpassando a apatia do papel timbrado e da caligrafia de chefatura, camadas muito densas de ressentimento e amargor.

A cólera lavada por mil anos em algum rio que corresse para o leste não seria menos indistinta em seus sedimentos, espalhados por entre a carne dos peixes e a terra fertilizada e excrescente, para todo a canalha das gentes gentis que nada sofre, seria a estes invisível como o ar. As pobres almas execradas por seu próprio ressentimento da impossibilidade de realizar a si mesmo uma experiência real de seu eu, que não a fuga silabaria de manifestação duma consciência meramente linguística da precedência de algo, aos desabitados pela possibilidade de existir como simples organela soldadesca e prototípica a uma espécie de seres esvaziados de certezas e perturbados pelo conhecimento tácito, apenas estes últimos a veriam obscurecendo toda e qualquer claridade.

Alojada entre escombros de vidas inteiras destruídas uma esperança débil daqueles remetentes. Requerendo a si algum direito de resposta, como se a choldra desejasse que a contradição sem contrariedade não fosse mais que fetiche.  E de algum modo como se por milagre anos sem fim de montanhas de tormentos pudessem simplesmente ser realocados em uma outra região do coração apenas colocando-lhes uma etiqueta diferente, e todo descuido propositado ou cada inação contemplativa diante da qual eu desfalecia pouco a pouco durante dias de silencio modorrento no escuro deserto da minha solidão devessem passar sem sua paga, aquilo indicava que eles achavam que por alguma razão agora poderiam se livrar do fardo de uma vida inteira que haviam arruinado.

Não queria crer que sob a poeirenta ossatura  da mente desgastada, guardado no fundo do estrato duma vida de lisura vazia e anos de simulacro não houvesse mais nada  do húmus que me tivera dado aquele beijo doce no jardim do verão entre os eucaliptos a beira do lago onde a lembrança havia escondido todo seu pundonor.



Conspurcado jazeu o papel destinando a lixeira.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Sobre a eliminação da faculdade do entendimento

Ao mesmo tempo em que rebitava o conceito no objeto por meio das coincidências ilusórias da adequatio a razão instrumental espremia da formação a faculdade do entendimento, mutilando os sujeitos da reflexão que reconcilia a percepção e os juízos da razão. Seria essa a fonte básica da irreflexão ? um dos elementos, no horizonte da massificação da produção social  da incapacidade reflexiva e do apagamento da referencia básica a catástrofe da superexitação contemporânea ?

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

UMA ODE OU NOTAS DE UMA LEITURA DE EZRA POUNDS

E pois com a nau no mar,

Parabolante antenavegatriz,
Ajuntamo-nos aos montões d’agua,
Ensetamos à hilada nevoa,
Movediço e nobre sangue,
hápax sem cabida,
do indizível,
que à boca cala,
na medida da razão,
para tal impropério,
deixei um cais,
languidamente,
mortiço e controverso,
viajante contranavegador,
dum estuário que dista,
e o logradouro eu perco,
que me escorre já,
em lembrar,
insucesso,
onde houvera nascido,
templo  de são Pedro,
em que habitamos,
barco e gente,
que inda sou,
sob o augúrio dela,
no fundo e na carne,
que morta sempre revive,
galeras gorgolejando,
goelas resfolegando,
podre adubo do mundo,
onde a vida não é precisa,
do que enricar nunca se pode,
malbaratada cabeça,
inda que se pense o contrario,
e disso gloria,
como sabido em Orfalese,
que mais cantava,
da boca do leão da aurora,
sincopado polifônico,
lançado contra as vagas,
Propalar apático,
Diminuta envergadura,
punção incontrolável,
do morrer noutro,
novas e indecisas,
movimentos infinitos,
que minha natureza sofre,
afogar cultural,
de breu e agua,
donde o mundo veio,
caminho sem volta,
diluídos no medo,
do alcance do desejo,
à dobra atlântica de Netuno,
cujo corpo é que se navega,
suarenta como só,
a choldra humílima,
sem sabida para tanto,
descuido primevo,
que nunca houve tal coisa,
onde a quilha assestar,
não seguro,
E descalço andar,
à réprobo da carne,
lasciva transparência,
do tegumento humano,
ereto mastro,
do assassínio vão,
intumescido e voraz,
faminto ouroboros,
da verdura dos meus anos,
longínqua fonte refletida,
que medrar nem me permito,
na hombridade mui amiga,
no meu corpo,
velado manto funesto,
cinzel doutra arte,
que o berescopio só serve,
que mais vergar não pode,
no fito imbuído,
que a si mesmo em contra-valor,
do que tenha querido,
onde tanto requer,
muito mais parcimônia,
e mais que em tudo,
onde avoluma a onda,
do querer,
Telos profano,
quando ainda intuição,
efêmero momento,
de utilidade vazio,
que a nave do meu juízo canta,
em si contrita,
à capela em voz velada,
esfumaçado moti,
um debrum madrigal,
na borda alheia,
espaçado e tremulo,
marejar os olhos
que fado seja,
hebrida cantilena,
mesmo roto,
dum redundo hiato,
posto que é voz embriagada,
desvão entrecortado,
cardada com destreza,
duma gente soldadesca,
que os seus abole,
e baloiça amalucada,
à nênia desgraçada,
como bedel já fôra,
que o tempo roga,
singrar o mar revolto e largo,
E tenebroso as serpentaceas,
dos teus braços,
nadir resiliente,
mansão do meu desejo,
em que permanecer é caro,
áurea proposta terrena,
rebolar o rochedo de Sisifo,
inacabados,
empíreo que eu alcancei,
a bom bordo viraste a quilha,
e o lampadário do q'eu soubera,
o tombadilho mo tomaste,
com espada entumecia,
na tua mão o báculo,
priápico sinalar,
pra nenhures aportar,
que cabida à nos não ha,
nem embornal que encontrar,
pois remido jamais,
da empresa em que lancei,
como preso estejamos,
A um espolio inexistente,
brutal e loucamente,
assaz desvão,
vórtice inebriante,
espécie de Garagantua,
devorante execrável,
da carne mesma de si,
canibal alimento,

no vir a ser eterno que somos.